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Não há arte possível para a gente de bem

A autocensura transformada em censura pelo Santander Cultural é um sinal dos dias sombrios que atravessamos

Uma exposição que inflamou aquela cidade fria. Os cidadãos de bem comentavam, mesmo sem ter visto. As mães protegiam seus filhos daquelas telas, esculturas e objetos, consideradas uma ameaça à família, ao espírito nacional, aos altos valores.

Cada obra como um ataque premeditado à ordem; cada defensor desse tipo de arte como um pervertido, pedófilo, bandido ou prevaricador — talvez todos os atributos combinados.

Uma patrulha civil, milícia da moral, de plantão do lado de fora, abordando e intimidando as pessoas. Afinal de contas, quem não é pelo bem compactua com o mal.

Porto Alegre? MBL? Mostra queer?

Não.

Este texto começou em Munique, onde, há exatos 80 anos, em 1937, um certo Adolf Hitler transformou a mostra "Arte degenerada" em uma de suas principais peças de propaganda ideológica.

Nas paredes e no espaço, obras de Piet Mondrian, Emil Nolde e Oskar Schlemmer, entre outros grandes nomes da arte moderna.

Esteticamente, eles representavam a ruptura com a ideia de verossimilhança e com o sistema de representação ordenado e hierárquico vigente desde o Renascimento.

Simbolicamente, apontavam para a arte como um horizonte de ambiguidades, um campo sem compromisso com o real; um impulso sempre faminto de liberdade e de utopia. E, é claro, um perigo avassalador para a intolerância e o discurso monocórdio de Hitler.

A exposição "Arte degenerada" deu ao ditador a chancela para a destruição de obras dos artistas participantes e também de Picasso, Kandinsky e Matisse — todos vistos como vetores "judaico-bolcheviques".

O resto da história conhecemos bem — ou ao menos deveríamos: obras de arte queimadas, escondidas, destruídas. Artistas e pensadores fugindo ou morrendo.

(Esse cartão, apesar de ser sobre arte, intencionalmente não tem nenhuma arte)

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Brazil, São Paulo
2 comments
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Como é possível tal texto ser tão contemporâneo? Me convenço de que os tempos, à sua maneira, são cíclicos.
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Mr. OctopusAuthor
Isso é um belo tema pra debater! Tenho exatamente a mesma impressão.
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